Uma visão geral das citações do mês

Recapitulação das citações antigas do mês a partir da página principal. A designação de citação do mês não é ideal, porque essas "citações" são realmente trechos da série de livros Angélica, de Anne Golon, que expressam adequadamente a atmosfera do período atual do ano... Em geral, todas as citações correspondem às épocas do ano e ao clima atual, e, claro, às tradições culturais (ritos) adequadas para a temporada atual.

Novembro 2017

Ali, o outono estava mais adiantado. Os cisnes, patos, gansos brancos, gansos bernachos, passaram, constelando o céu com cruzes de pontas pretas. As abelhas tinham feito suas casas no alto dos ramos, sinal de que o inverno seria rigoroso. A Sra. Jonas tinha pressa de mostrar a Angélica em que ponto estavam os trabalhos referentes às provisões de inverno reunidas durante o verão, fruto de colheitas ativas e de cuidados dispensados às primeiras culturas. Bagas dos bosques, cerejas-silvestres, pequenas peras, nozes, frutos de faias, avelãs, foram juntados, colocados para secar, assim como os diversos cogumelos, enfiados em cordões finos e resistentes e estendidos em enfiada de uma viga a outra dos forros. Em caso de penúria, raízes de bardana eram cozidas em água salgada e as bolotas podiam ser consumidas depois de se jogar fora a primeira água. (Golon, Anne e Serge. Angélica no caminho da esperança. São Paulo: Círculo do Livro, 1989, p. xx)

Outubro 2017

Ele entrou. Adivinhou que ela dormia. A penumbra conservava os vestígios de um perfume de mulher que se lhe tornar; familiar. A visão das roupas femininas jogadas aqui e ali o fez sorrir. Onde estava a austera e esquiva huguenotezinha de La Rochelle, em trajes de criada, que um dia, quando se vogava para a América, o Rescator mandara chamar à sua cabina luxuosa para tentar domesticá-la? Onde estava mesmo a pioneira que, durante todo aquele terrível inverno do Alto Kennebec, ficara ao seu lado, a assisti-lo com uma coragem sem limites? Apanhou uma ponta de renda, um espartilho cuja seda mantinha a forma das curvas plenas. Depois de ter sido uma criada anónima, e em seguida a companheira de um explorador do Novo Mundo, eis que finalmente sua Angélica voltava a ser a Sra. de Peyrac, Condessa de Toulouse. “Deus queira!”, murmurou, lançando um olhar fervoroso para a alcova onde se adivinhava a cintilação de uma cabeleira. (Golon, Anne e Serge. Angélica e o complô das sombras. São Paulo: Círculo do Livro, 1989, p. xx)

Setembro 2017

Veio o mês de setembro, frio e chuvoso. “Eis o Homicida, o inverno, que chega”, queixou-se Pão Negro, aproximando-se do fogo, com seus andrajos molhados. A madeira úmida rechinava na lareira. Excepcionalmente, os burgueses e os ricos comerciantes de Paris não esperaram o Dia de Todos os Santos para envergar seus trajes de inverno e fazer-se sangrar, segundo as tradições de higiene que recomendavam entregar-se à lanceta do cirurgião quatro vezes por ano, quando da mudança das estações. Mas os nobres e os mendigos tinham outro motivo de preocupação além de falar da chuva ou do frio. Todas as altas personagens da corte e das finanças estavam aturdidas pela prisão do riquíssimo superintendente das Finanças, Sr. Fouquet. (Golon, Anne e Serge. Angélica a caminho de Versalhes. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 133)

Agosto 2017

Desta vez foi com um sorrio que ele a deteve. O sorriso descobriu o brilho dos dentes que continuavam esplêndidos. Era bem o sorriso do último dos trovadores, mas velado de um sentimento de melancolia ou desencanto. “Quinze anos, senhora! Pensai nisso, antes. Tentarmos nos enganar seria uma comédia indigna e estúpida. Um e outro temos outras recordações... conhecemos outros amores...” Foi então que a verdade que ela se recusava a encarar trespassou-a como a ponta afiada e gelada de um punhal. Ela o encontrara, mas ele não a amava mais. Em todos os seus sonhos sempre o imaginara a estender-lhe os braços. Esses sonhos - ela percebia agora - eram pueris como a maioria das imaginações femininas. A vida se inscreve numa pedra mais dura do que a cera simples e mole dos sonhos. Sua forma se molda em relâmpagos cortantes, que ferem, que machucam. (Golon, Anne e Serge. Angélica e seu amor. São Paulo: Círculo do Livro, 1989, p. 77)

Julho 2017

Angélica encontrou o Sr. de Ville-d’Avray empoleirado numa grande rede de algodão, pendurada em duas vigas. O filhinho brincava aos pés dele com pedaços de madeira. “É uma autêntica rede do Caribe!”, explicou o governador. “Que conforto! É preciso saber estender-se bem atravessado, de uma ponta a outra, e então se descansa admiravelmente. Consegui-a por algumas tranças de fumo de um escravo caraíba que passava por aqui com o amo, um desertor de navio pirata.” (Golon, Anne e Serge. Angélica e a duquesa diabólica. São Paulo: Círculo do Livro, 1989, p. 384)

Junho 2017

O pastor agradeceu e pediu permissão para retirar-se a fim de “lavar-se um pouco”. “Não lhe bastou o aguaceiro?”, pensou Angélica. “Que pessoas originais esses huguenotes! Dizem com razão que não são como as outras criaturas. Amanhã perguntarei a Guilherme se ele também se lava a cada instante. Deve ser algum de seus ritos. Por isso mostram, amiúde, esse ar triste e às vezes são tão irritáveis como Lützen. Têm a pele muito áspera e em carne viva e deve doer-lhes... É como o jovem Filipe, que também sente necessidade de passar a vida a banhar-se. Não há dúvida de que essa preocupação acabará por arrastá-lo à heresia. Pode ser que o queimem, e será muito bem-feito!” (Golon, Anne e Serge. Angélica, Marquesa dos Anjos. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 87)

Maio 2017

Uma mulher jamais é tão vulnerável como quando precisa ser consolada de uma ausência de sua amada. Os homens, os maridos, deveriam sabê-lo. [...] Sonhadora, em meio ao balanço acalentador do navio, ela deixou o pensamento perder-se no luar, vende nele desfilar, numa seleção bastante particular, as antigas silhuetas dos homens que conhecera, todos tão diversos, e em meio aos quais passaram de repente, sem que ela soubesse por que, o rosto franco do conde de Loménie-Chambord e mesmo distante, hierática mas tão clemente, a nobre figura do abade de Nieul. (Golon, Anne e Serge. A tentação de Angélica. São Paulo: Círculo do Livro, 1988, p. 191-192)

Abril 2017

Angélica e Abigail estavam ambas no centro do jardinzinho, por entre os altos tufos de flores e folhagens. Era um jardinzinho que rodeava a casa dos Berne e fechado com uma cerca, à maneira da Nova Inglaterra, o tipo de toda mulher de colono precisava ter, a fim de preservar a saúde da família com remédios, naquele lugar onde, com frequência, o boticário se encontrava muito distante - e também para realçar e apurar os pratos sem graça, os peixes e a caça. Misturavam-se alguns legumes, verduras, peras, rabanetes, cenouras, e muitas flores para alegrar o coração. [...] Abigail afastou uma folha redonda e aveludada de um pé que avançava para fora da platibanda. (Golon, Anne e Serge. Angélica e a duquesa diabólica. São Paulo: Círculo do Livro, 1989, p. 86)

Março 2017

No exército francês, o rei recebia as damas à sua mesa. Numa noite, ao jantar, seu olhar caiu sobre Angélica, sentada não muito longe dele. Suas vitórias recentes e aquela mais íntima sobre a Sra. de Montespan haviam, na alegria do triunfo, embotado um pouco as habituais faculdades de observação do soberano. Acreditou ver a jovem pela primeira vez, desde o início da campanha, e perguntou-lhe amavelmente: “Com que então, deixastes a capital? Que diziam em Paris quando partistes?” Angélica dirigiu-lhe um olhar frio. “Diziam as vésperas, Sire.” “Pergunto quais eram as novidades.” “As ervilhas frescas, Sire.” (Golon, Anne e Serge. Angélica e o rei. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 224)

Fevereiro 2017

Ela conduziu-o ao salão vizinho, onde fizera pôr a mesa para ele. Os castiçais de ouro, nas extremidades da mesa, iluminavam numa bandeja de ouro uma imensa perua recheada de castanhas, guarnecida com pastéis de maçã. Rodeavam-na terrinas de legumes quentes e frios, uma caldeirada de enguia, saladas e uma profusão de frutas numa travessa de prata. Para fazer as honras ao pobre homem da floresta, ela usara a baixela de que tanto se orgulhava. Além da bandeja, dos castiçais e da travessa, havia duas taças cinzeladas e dois gomis antigos trabalhados, de valor inestimável. (Golon, Anne e Serge. Angélica e o rei. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 426)

Janeiro 2017

Entre os regimentos que o rei enviou a Poitou em 1673 estava o 1º regimento de Auvergne comandado pelo Sr. de Riom, e cinco das mais gloriosas companhias das Ardennes. O rei ouvira muitos comentários sobre o terror supersticioso dos soldados diante das ciladas da floresta do Poitou. Os que hoje enviava, naturais de Auvergne e das Ardennes, ele os escolhera entre homens dos bosques, habituados desde a infância à sombra e à maldição das árvores, aos javalis, aos lobos, aos rochedos, acostumados a ler pistas invisíveis, todos filhos de tamanqueiros, de lenhadores ou de carvoeiros. [...] O rei dissera: “Antes da primavera.” O inverno não deteria a guerra. (Golon, Anne e Serge. A revolta de Angélica. São Paulo: Círculo do Livro, 1989, p. 196)

Dezembro 2016

Nessa vestimenta de sonho, Angélica tinha um ar irreal. Sua pele ambarina, que ela empoara, captava a luz. [...] Delfina, a jovem camareira, chamou Henriqueta e Iolanda e também requisitou o auxílio do costureiro e de Kuassi-Ba, pois o manto não era fácil de carregar. Era feito de pele branca, forrado de lã fina e cetim branco, com um amplo capuz bordado de ouro e prata por dentro. Tinha-se que prestar atenção para que não arrastasse no chão, já que o soalho de um navio nem sempre era o que se podia encontrar de mais limpo. (Golon, Anne e Serge. Angélica em Quebec I. São Paulo: Círculo do Livro, 1989, p. 11-13)

Novembro 2016

Florimond se atirou à cama com os olhos brilhando. “Ah, a espada! Essa é a arma de um gentil-homem. Aqui, neste país de joões-ninguém, já não se sabe o que é a espada. Batem-se com cassetetes, com machados, como os índios, ou o mosquete, como os mercenários. Há que lembrar da espada. É o dardo das almas nobres!... Ah, ser corneado um dia e poder oferecer-me um belo duelo!...” (Golon, Anne e Serge. Angélica e o Novo Mundo. São Paulo: Círculo do Livro, 1988, p. 400)

Outubro 2016

O latido compacto da matilha explodiu subitamente. Uma forma castanha irrompeu na orla do bosque. Era o cervo, um animal muito novo, cujos chifres mal despontavam. Seu galope fez com que a água brotasse em jorros através do pântano. Atrás dele a massa de cães desceu como um rio branco e avermelhado. Em seguida um cavalo emergiu da mata, montado por uma amazona de gibão vermelho. Quase ao mesmo tempo, e de todos os lados, cavaleiros desembocaram e desceram ao longo da inclinação relvada. Em um instante o terno e bucólico vale foi invadido por um tumulto bárbaro onde se misturavam os latidos persistentes dos cães, os relinchos dos cavalos, as interpelações dos caçadores e a fanfarra estrondeante das trompas que acabavam de entoar o halali. (Golon, Anne e Serge. Angélica e o rei. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 34-35)

Setembro 2016

Angélica ainda se perguntava se ele sabia de fato para onde ia ou se era o acaso que os conduzia a bom porto. Por cem vezes deveriam ter-se perdido, perecido. Mas era um fato: ninguém morrera. E há três semanas, os que compunham a pequena caravana partida de Gouldsboro nos últimos dias de setembro haviam-se submetido ao próprio destino, rolados, inebriados pela floresta e seus caminhos, como seixos no fluxo da torrente, a pele amorenada nos ângulos do rosto, os olhos lavados de luz viva, de azuis resplandecentes, do azul do céu entrevisto através de um caleidoscópio colorido de folhagens e, nas dobras de suas roupas, os odores de madeira queimada, de outono, de resina e framboesa. No calor daquele final de estação, o hálito dos lagos evaporava-se às primeiras horas da manhã, deixando a superfície da água brilhante e límpida e, sob as árvores, uma secura estalejante que ressoava longe. (Golon, Anne e Serge. Angélica e o Novo Mundo. São Paulo: Círculo do Livro, 1988, p. 9)

Julho - Agosto 2016

Ao chegar ao Quai de la Tournelle, sentiu o cheiro de feno fresco. O primeiro feno da primavera. As chalanas ali estavam atracadas em fila, com seu carregamento leve e odorífero. Na aurora parisiense, elas espiravam um anélito de incenso morno, o aroma de mil flores secas, a promessa dos belos dias que viriam. [...] Ela entrou na água e subiu para a proa de uma chalana. Depois, penetrou no feno com voluptuosidade. Sob o toldo, o aroma era inda mais embriagante: úmido, quente e carregado de tormenta, como um dia estival. De onde poderia vir aquele feno temporão? De uma campina silenciosa e rica, fecunda, batida pelo sol. Aquele feno fazia pensar em paisagens arejadas, secas pelo vento, de céus cheios de luz. (Golon, Anne e Serge. Angélica a caminho de Versalhes. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 87)

Maio - Junho 2016

Quando saía à procura de plantas e não à coleta, Angélica levava somente Honorina. Terminado o inverno, Honorina deixava de ser uma criança como as outras, preocupada com fogueiras e comidas e brincadeiras, e voltava a ser a companheira da mãe. Para armas e flores, havia um entendimento entre as duas. Honorina era resistente, caminhava resolutamente sobre os passos de Angélica e até chegava a fazer o dobro do trajeto, à força de correr e bisbilhotar por todo lado. Para ter certeza de não perdê-la naquelas matas imensas, Angélica pendurava-lhe um sininho no pulso. Assim, em toda parte o alegre ruído revelava-lhe a presença. (Golon, Anne e Serge. Angélica e o Novo Mundo. São Paulo: Círculo do Livro, 1988, p. 530)

Abril 2016

Versalhes estava inundada de luz. Um dia de abril, inesperadamente quente e primaveril, envolvia o palácio com o vapor rosa e dourado, que parece característico das regiões com água estagnada. “Como Versalhes é bela” disse Angélica consigo. Voltara-lhe a coragem e as inquietações místicas se haviam dissipado. Diante de Versalhes podia-se crer na clemência de Deus e do rei, que edificara tais maravilhas. [...] Angélica sentou-se na borda de uma concha de mármore jaspeado. Ao seu redor, amáveis nereidas brandiam castiçais aquáticos com seis braços dourados sob a forma de algas marinhas lançando jatos de água perolados. Um farfalhar de arvoredo, provocado pelos chilreios de milhares de pássaros, animava as abóbadas embaçadas de orvalho. (Golon, Anne e Serge. Angélica e o rei. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 442)

Março 2016

Um suor frio inundou Angélica. A tarde caía. Por trás da grade do respiradouro, uma luminosidade avermelhada denunciava o crepúsculo. Angélica bateu na porta do compartimento, mas ninguém apareceu ou respondeu ao seu chamado. Ela voltou à seteira e agarrou-se às barras. A abertura ficava ao nível do chão. Um vago rumor indicava que o mar não devia estar longe. Tornou a chamar: em vão. A noite avançava, indiferente aos prisioneiros emparedados vivos, que, até a manhã, nada mais deviam esperar de seus semelhantes. Ela teve um movimento de vazio, de ausência, no qual girou em círculos, gritando como uma condenada. Um ligeiro ruído fê-la recobrar a razão. Era um barulho de passos no exterior. Angélica voltou a colar-se ao frio metal enferrujado das barras da janela. Os passos aproximavam-se. Dois sapatos surgiram na outra extremidade da abertura. “Por amor dos céus, vós que passais... detei-vos! Escutai-me!” gritou Angélica. Os sapatos imobilizaram-se. “Pelo amor de Deus, compadecei-vos de minha súplica.” Ninguém respondia, mas os sapatos não se moviam. (Golon, Anne e Serge. A revolta de Angélica. São Paulo: Círculo do Livro, 1989, p. 229)

Fevereiro 2016

Após um breve repouso, reencetaram a marcha. Falavam pouco, conservando as forças para o esforço intenso que a longa caminhada representava, com as raquetes de corda aos pés, bastante incômodas e que faziam cada passo uma dificuldade; insuficientes, porém, para mantê-los sempre à superfície da neve mole ou poeirenta. Tinham que safar-se, então, levantando bem alto o joelho, para sentir, no passo seguinte, a neve ceder outra vez sob o peso deles. Florimond resmungava, dizia que era preciso encontrar outro jeito de caminhar na neve. [...] Os músculos de Florimond doíam. Ele, que se acreditava jovem e forte, dava-se conta de que tinha braços de alfenim quando tinha que repetir dez vezes seguidas em vinte minutos o esforço necessário para se içar de uma vala, agarrando-se aos galhos de um abeto. (Golon, Anne e Serge. Angélica e o Novo Mundo, São Paulo: Círculo de Livro, 1988, p. 370)

Janeiro 2016

Kuassi-Ba passou perto de cada um, depositando com sua mão negra, sua mão de rei mago, um lingote de ouro. [...] O velho Elói brandiu o seu no ar. “Cometeis um erro, senhor conde. Não sou dos vossos. Vim assim por nada, e fiquei. Não me deveis nada.” “És o trabalhador da undécima hora, velho pirata” respondeu Joffrey de Peyrac. “Conheces o teu Evangelho? Sim, pois bem, medita nele e fica com o que te dão. Comprarás uma canoa nova e dois anos de mercadorias de troca, para recolher as peles do oeste. Todos os teus concorrentes sufocarão de inveja...” (Golon, Anne e Serge. Angélica e o Novo Mundo. São Paulo: Círculo de Livro, 1988, p. 415-416)

Dezembro 2015

A Sra. De La Vaudière exultou. “Bem como pensei! O Sr. de Peyrac está com os jesuítas.” [...] A Sra. de La Vaudière parecia familiarizada com o local, que não lhe inspirava receio algum. Não se deixou impressionar, como Angélica, pelo vestíbulo lajeado, guarnecido de algumas de algumas cadeiras, um único crucifixo grande à parede e uma pia de água benta à direita da porta. Berengária molhou as pontas dos dedos com um misto de desenvoltura e compunção que foi uma obra-prima de graça e hipocrisia femininas. Ao fazer isso possuía um encanto inegável, a petulância ao mesmo tempo alegre e devota que se atribui a certa categoria de anjos que rodeiam o trono do Altíssimo. (Golon, Anne e Serge. Angélica em Quebec I. São Paulo: Círculo do Livro, 1989, p. 223-224)

Novembro 2015

Todos sentiram-se igualmente tranquilizados e excitados por aquelas histórias de conto de fadas, da mesma forma como floresceram nelas a alma cristalina e diamantina das províncias. Em silêncio, eles estavam conscientes da felicidade daquela grossa parede protetora ao seu redor, o verdadeiro valor do antigo edifício, que se alisava como uma ilha rochosa negra na escuridão, entre os dois elementos originais da criação, a água dos pântanos na antiga baía do mar, de onde as profundezas salobras do oceano se retiraram e o gentil brilho da enorme floresta celta, que cobriu os promontórios no fim do mundo. (Golon, Anne. Angélique l’Intégrale: Die junge Marquise. Tradução do alemão)

Outubro 2015

Seu entusiasmo continuava intacto. Ela se maravilhava às vezes, e agradecia aos céus em segredo por jamais ter saído amargurada de suas provações. Ao contrário, seu espírito permanecia juvenil. Possuía mais experiência que a maior parte das mulheres de sua idade, e menos desilusões. Sua vida estava semeada de prazeres cultivados e maravilhosos, como os conhecem as crianças. Quem jamais conheceu a fome pode regozijar-se em morder um pedaço de pão quente? E quem caminhou de pés nus pelas ruas de Paris, e chegou um dia a possuir semelhantes pérolas, não se deve acreditar a mulher mais feliz do mundo? (Golon, Anne e Serge. Angélica e o rei. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 12-13)

Setembro 2015

A tarde ia avançada quando ele lhe revelou uma nascente quase invisível numa pequena clareira, uma água que jorrava e desaparecia simultaneamente, sem um ruído, logo tragada pelo terreno esponjoso, uma oferenda silenciosa e ininterrupta da terra, uma água de gosto acre. Com ela sentia-se na língua o gosto de folha. A primavera ressuscitava ali: agrião, sálvia e hortelã misturados. O encanto daquela nascente agiu sobre Angélica a ponto de fazê-la perder a noção do tempo. [...] A mulher branca, explicou ele (Mopuntuk), era naturalmente, como todas as mulheres, bastante rebelde e inclinada um pouco demais a convencer um homem de que ele não sabia o que fazia, mas reconhecia a água das nascentes e sabia distinguir-lhes o paladar. Era um grande dom. Um dom benéfico. (Golon, Anne e Serge. Angélica e o Novo Mundo. São Paulo: Círculo do Livro, 1988, p. 270)

Julho - Agosto 2015

Ela voltou para a escadaria estreita, depois outra, e outra, até que finalmente se encontrou em um terraço com toda a abóbada estrelada do céu espalhada acima dela. Uma luz prateada manchou a névoa fresca que se elevava do mar em um vapor azulado que envolvia tudo, até a cúpula da mesquita próxima. O minarete pareceu quase transparente sob os raios da lua, e a deixou ligeiramente tonta, já que parecia deslizar sob a luz. (Golon, Anne e Serge. Angélica indomável. São Paulo: Círculo do Livro, 1988)

Junho 2015

“E a mim me parece que em vossa família sois muito suscetíveis!”, replicou Angélica, cuja cólera se sobrepunha ao terror. “Se vos festejam ou vos adulam, ofendei-vos porque aquele que vos recebe parece mais rico que vós. Se vos oferecem presentes, é uma insolência! Quando não vos saúdam bastante profundamente, é outra insolência! Quando não se vive como mendigo, estendendo a mão até arruinar o Estado, como todo o vosso galinheiro de gentis-homens, é uma arrogância contundente! Quando não se pagam os impostos com pontualidade, é uma provocação!... Um bando de gente mesquinha, eis o que sois, vós, vosso irmão o rei, vossa mãe e todos os traidores vossos primos: Condé, Montpensier, Soissons, Guise, Lorena, Vendôme...” (Golon, Anne e Serge. Angélica, Marquesa dos Anjos. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 469-470)

Abril - Maio 2015

O porteiro balançou a cabeça. A Semana Santa estava prestes a começar, e o mosteiro já estava em retiro. Era verdade que um silêncio mais profundo que o habitual pesava sobre a abadia. Os homens consagrados reuniam-se para a terrível peregrinação dos dias que antecediam a Páscoa. A mulher devia afastar-se. [...] Duas semanas antes, nesse mesmo local, ela escorregara na neve, sufocada pelo frio cortante, sentindo na carne toda a crueldade do árido inverno. Hoje, o valezinho estava aveludado de verde, o riacho que transpusera adormecido sob o gelo, saltava com a graça de um cabrito novo, as violetas adornavam a orla das árvores. O cuco cantava anunciando o calor, o desabrochar da primavera. Angélica ficou com os olhos embaçados diante de tais maravilhas. Com que então a natureza e a vida podem ter dessas surpresas clementes. De um inverno longo e rigoroso, jorrava com força decuplicada a riqueza das folhagens e das flores [...]. (Golon, Anne e Serge. A revolta de Angélica. São Paulo: Círculo do Livro, 1989, p. 224)

Março 2015

A última porta a franquear para enfim aquecer-se à luz do Rei-sol - o casamento com Filipe - desmoronava. Ela sempre soubera, aliás, que isso seria muito difícil e que não teria forças suficientes. Não passava de uma chocolateira, e não poderia manter-se por muito tempo mais ao nível da nobreza, que jamais a acolheria. Recebia-a, mas não a acolhia... Versalhes!... O brilho da corte, o esplendor do Rei-Sol! Filipe! Belo deus Marte inacessível! Ela recairia ao nível de um Audiger. E seus filhos nunca seriam gentis-homens... Absorvida em seus pensamentos, ela não sentia o tempo passar. O fogo se extinguia na chaminé, a vela fumegava. (Golon, Anne e Serge. Angélica a caminho de Versalhes. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 418)

Fevereiro 2015

“Meus cordeiros”, disse o senhor Vicente, “filhinhos de Deus, intentastes provar o fruto verde do amor. Eis por que vossos dentes se embotaram e tendes os corações cheios de tristeza. Deixai, pois, amadurecer ao sol da vida aquilo que sempre esteve destinado a sazonar. Quando se procura o amor, é preciso não se transviar, porque, do contrário, talvez ele nunca seja encontrado. Que castigo mais cruel para a impaciência e a fraqueza do que estar condenado s vida inteira a não morder senão frutos amargos e sem aroma!” [...] Angélica não virou a cabeça até chegar à porta do convento. Sentia uma grande paz e guardava a lembrança de uma velha e cálida mão pousada em seu ombro. (Golon, Anne e Serge. Angélica, Marquesa dos Anjos. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 151)

Janeiro 2015

“O que pensais de uma tempestade nos arredores da Nova Escócia? Magnífica, não é? Não tem nada a ver com aquelas tempestades engarrafadas do pequeno Mediterrâneo. Felizmente, o mundo é mais vasto e não mostra apenas mesquinharia...” Ele ria. Isso indignou tanto Angélica, que ela conseguiu se pôr de pé apesar do peso de chumbo que parecia ter sua saia encharcada. “Vós rides” exclamou, encolerizada. “Todas as tempestades voz fazem rir, Joffrey de Peyrac... As torturas voz fazem rir. Cantais no átrio de Notre-Dame... O que importa que eu chore? O que importa que eu tenha medo de tempestades? Até no Mediterrâneo... sem vós...” (Golon, Anne e Serge. Angélica e seu amor. São Paulo, Círculo do Livro, 1989, p. 238-239)

Dezembro 2014

Um homem se distancia pelo deserto gelado. Iniciam-se as quatro semanas do Advento. O Natal aproxima-se. Natal! Natal! E enquanto repicam os sinos e o sopro da vida escapa de todas as chaminés, como de um incensório e dos círios acesos, subindo ao céu gelado para lembrar ao Criador que os homens estão ali, naquele deserto desumano, um homem, atado pelo voto da obediência, afasta-se de todo recurso, um Toga Negra se separa, a pesadas passadas de raquetes, do seio dos amigos, da estima dos seus e do santuário de suas obras e trabalhos. E nele mesmo o deserto gelado substituiu todas as chamas de vida. (Golon, Anne e Serge. Angélica em Quebec I. São Paulo: Círculo do Livro, 1989, p. 329)

Novembro 2014

Ancorada no canal, em meio à agitação de chalupas, ao lado de dois pequenos navios ingleses, de um falucho napolitano e de uma galera biscainha, a grande nau balançava-se como uma borboleta pousada junto ao tapete verde. Era uma fragata em miniatura, guarnecida de pequenos canhões de bronze, cujo casco, adornado de flores-de-lis, buquês, conchas e divindades marinhas, cintilava em ouro. O cordame era em seda autora ou carmesim, as bandeiras e tapeçarias, de damasco e brocado, guarnecidas de franjas de ouro e prata. No equipamento e nos mastros, pintados de azul e ouro, flutuavam pavilhões, flâmulas, estandartes, bandeirolas, numa alegre sinfonia colorida onde luziam por todo lado, em ouro e prata, as armas e as iniciais do rei. Daquela joia, daquele brinquedo cintilante, Luís XIV fazia, naquele dia, as honras à corte. Um pé sobre a escada de madeira dourada, ele voltou-se para as damas. Quem seria escolhida para inaugurar o passeio aos campos do Trianon?... Vestido de cetim azul-real, o rei se harmonizava com o belo dia de verão. Ele sorriu e estendeu a mão a Angélica. Diante dos olhos de toda a corte ela subiu os degraus e instalou-se sob o dossel de brocado. O rei sentou-se ao seu lado. (Golon, Anne e Serge. Angélica e o rei. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 550)

Outubro 2014

Senhor, não se poderia criar nesta terra um mundo onde um Breteuil não tivesse o direito de desprezar um Colin Paturel, onde um Colin Paturel não tivesse que se sentir humilhado por seu amor inacessível por uma grande dama da corte?... Um novo mundo, onde aqueles que tivessem bondade, coragem, inteligência seriam colocados no alto, onde ficariam embaixo aqueles que fossem desprovidos dessas qualidades? Não haveria uma terra virgem para receber os homens de boa vontade? Onde, Senhor?... Em que terra?... (Golon, Anne e Serge. Angélica indomável. São Paulo: Círculo do Livro, 1988, p. 567)

Setembro 2014

“Parece que a Infanta ainda usa anquinhas com aros de ferro tão grandes que tem de pôr-se de lado para passar pelas portas. E o justilho apertado a tal ponto que parece não ter seios, ela que dizem tê-los formosíssimos”, exagerou a Sra. De Motteville ajeitando algumas rendas sobre seu magro torso. Joffrey de Peyrac deixou cair sobre ela seu olhar mais cáustico. “Realmente, é preciso que os costureiros de Madri seja muito pouco experientes para estragar de tal maneira o que é belo, enquanto os de Paris são tão hábeis que realçam o que quase não existe.” (Golon, Anne e Serge. Angélica, Marquesa dos Anjos. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 346)

Julho - Agosto 2014

Ela estava no sétimo mês de gravidez, a quinta em seis anos. Não tinha senão vinte e três anos; e já, atrás de si um deslumbrante romance de amor e, pela frente, uma longa vida de lágrimas ardentes a derramar. No outono, a Srta. de La Vallière, de amazona, vivera o seu esplendor final. Não era possível reconhecê-la agora, tão profunda fora a mudança. “Eis a que o amor por um homem pode reduzir uma mulher” pensou Angélica, num assomo de cólera. (Golon, Anne e Serge. Angélica e o rei. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 221)